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terça-feira, 26 de abril de 2011

O Gaúcho e o cavalo


Transcrevo, aqui, o texto do jornalista e escritor Juremir Machado, que fala do gaúcho, que nesse quesito, se acha o maior e os cavalos. Vale a pena ler.

Nada como uma boa provocação para fechar uma semana: esses nossos gauchões nunca entenderam coisa alguma de cavalos. Sempre fizeram pose. Tudo conversa fiada. Nunca entraram na "alma" dos bichos. Nem eles nem os caubóis americanos. É o único consolo que lhes resta. Passaram séculos convivendo com os cavalos e jamais entenderam um centavo da psicologia dos animais. Que incompetência. Que falta de capacidade de observação. Que ausência de intimidade com suas montarias e amizades. Foi preciso que um fazendeiro dos Estados Unidos viesse dar-lhes algumas lições, mostrar-lhes que o cavalo é presa, não predador.

Nossos gaúchos, sempre tão orgulhosos do seus conhecimentos sobre cavalos, nunca foram, por conta própria, além da doma na porrada. Jamais perceberam que o animal podia ser adestrado facilmente com inteligência por quem realmente chegasse a conhecer-lhe a psicologia. Gastavam semanas ferindo os cavalos, batendo, correndo, massacrando e amarrando. Entortavam alguns para sempre. Na verdade, sentiam prazer em bater nos bichos, aquela perversidade típica do macho agressivo. A maneira que tinham de lidar com os cavalos nunca passou de grossura. Aí veio esse senhor chamado Marvin Earl Roberts, conhecido por Monty Roberts, admirado por meu vizinho cavalariano, e criou a doma racional, perfeita e gentil. Provou que dá para adestrar um cavalo em 40 minutos. Sem uma paulada, sem um gesto de barbárie, sem maldades, fazendo-o correr num círculo e ganhando-lhe a confiança.

Que vexame para os caubóis americanos e para os nossos gauchões. Dormiram com os cavalos vidas inteiras e nunca perceberam o que eles sentiam, como eles reagiam a determinadas palavras e gestos. Monty Roberts faz um cavalo "aporreado", bagual que nunca se amansa na paulada, baixar a cabeça, botar a língua para fora e segui-lo como um cachorrinho em meia hora. Nossos gauchões nunca entenderam de cavalo nem de mulher. Achavam que o certo e o bom era tratar ambos na força bruta e trazê-los na rédea curta. Roberts faz o cavalo segui-lo sem qualquer corda, magnetizado. Sim, sei, tudo isso é muito velho. Sim, imagino, existem outros que também ajudaram a descobrir ou a praticar a doma racional. Sim, claro, aceitarei suas explicações. Mas serei categórico: nunca conseguiram encantar os cavalos.

É a prova de que convivência não é sinônimo de conhecimento. Tem gaúcho por aí com saudades da doma tradicional, tão lúdica para quem gosta de selvageria, ou que ainda a pratica por gosto pela violência esportiva. Eu esperava mais dos gaúchos. Esperava que tivessem descoberto a doma racional, que tivessem penetrado antes de todo mundo na psicologia dos cavalos, que tivessem desvendado o mistério do diálogo com esses animais baseado em palavras como carinho, amor e confiança. Definitivamente, peço mil desculpas, mas nossos gauchões tão gabolas e brutos nunca entenderam nada de cavalos. Deve ser por isso que ainda gostam de exauri-los e até matá-los em caminhadas inúteis por serras e litorais.

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